15 de dez de 2011

Como realizar a comunicação na era do déficit de atenção?


Estamos na era da informação. Muita, disparada como raios em todas as direções. Nunca foi tão fácil se ter acesso a tudo e a todos. Porém, confunde-se muito a informação com a comunicação, no sentido literal da palavra. Nem tudo o que se vê é absorvido, muitas vezes em função da grande demanda de informação. E, nesse contexto de superficialidade, um caso curioso a ser analisado é a forma com que os portadores do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) atua nele.

O TDAH é uma disfunção neurológica no córtex pré-frontal, parte do cérebro responsável pela concentração, memorização e organização. Quando um portador de TDAH tenta se concentrar, a atividade do córtex pré-frontal diminui ao invés de aumentar, o que os tornam pessoas distraídas, desatentas, hiperativas e com dificuldades em controlar impulsos. É uma patologia reconhecida pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e é considerado o transtorno mais comum em crianças e adolescentes, ocorrendo em 3% a 5% das crianças e é mais recorrente em mulheres. Em mais da metade dos casos o transtorno persiste na vida adulta, ainda que com sintomas amenos.

O portador de TDAH não funciona sob pressão. O trabalho, ao invés de ser otimizado, perde a eficiência - mesmo que haja o esforço consciente de melhoria. Tal resultado gera, por parte de quem estimula o portador de TDAH, a suposição de que o desempenho está piorando e, consequentemente, a suspeita de má conduta proposital, o que gera mais pressão. Quem tem TDAH tem dificuldades em manter a atenção durante longos períodos. Tendem à dispersão e se desligam com frequência daquilo que estavam fazendo, imergindo-se em pensamentos completamente aleatórios e diferentes do contexto. Em geral, o portador de TDAH é uma pessoa que pauta suas atitudes pela impulsividade e instantaneidade inconscientes, cansam-se rapidamente de situações repetitivas e, por isso, nem sempre concluem aquilo que começam.

Diante de tantas características negativas, fica difícil imaginar que há formas de se comunicar com este público. No entanto, estudos mostram que os portadores de TDAH conseguem se concentrar em coisas que os estimulem de forma instantânea: beleza estética, novidades, temas interessantes e que os instiguem. São estímulos intrínsecos, suficientes para que o córtex pré-frontal seja ativado e tais pessoas mantenham o foco. O maior estímulo que um portador de TDAH pode receber é não ser estimulado de forma negativa: em toda situação de conflito, quanto mais tumultuada for a atitude, menos intensa deve ser a reação do outro.

Tais características, bem como as formas de lidar com o portador de TDAH, são bem similares às da chamada “geração Y”. Público nascido entre 1978 e 1990, esta geração tem como prioridade a busca pelo sentido da vida de forma rápida, ao mesmo tempo em que se preocupa com outras questões tão importantes quanto. A geração Y, diferentemente das gerações anteriores, nasceu inserida num contexto altamente tecnológico. Ela não precisou aprender a dominar a tecnologia, mas já nasceu habituada a conviver em um mundo onde as distâncias são relativas, as ambições são mutáveis e tudo, absolutamente tudo, deve priorizar a autorrealização.

Assim, a geração Y tende a ser individualista de forma positiva. Questionam valores éticos, engajam-se em questões socioambientais e, quando contrariados, não se calam. Isso os leva ao fácil desinteresse pela rotina e a busca constante do novo. Profissionalmente falando, a geração Y também se mantém mutável e trata colegas e superiores numa relação horizontal. Buscam o aprendizado como uma via de mão dupla, o que nem sempre é possível em determinados contextos. Enfim, guardadas as devidas proporções, a geração Y possui traços comportamentais similares aos dos portadores de TDAH.

Entende-se, portanto, que em ambos os casos o interesse é movido pelo novo. E, como se sabe, inovar é a palavra de lei em todos os segmentos. Com a comunicação não é diferente: é necessário criar atração através da inovação, de forma criativa e instigante. Seja o receptor alguém com dificuldades patológicas de concentração ou um mero representante de uma geração, a comunicação deve ter, antes de tudo, razão de existir e mostrar que não é um único ponto de vista. Deve ser flexível, mutável e agregadora de valores e conteúdo, atiçar no receptor a vontade de saber mais e ir além. E, dessa forma, a comunicação quebra preconceitos, deixa de lado a efemeridade da informação e trata ambos os públicos como peças essenciais para a efetivação de seus processos.

Referências:

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Artigo desenvolvido como conteúdo avaliatório da disciplina "Teorias da Comunicação nas Organizações", ministrado pelo professor Bernardo Rodrigues no curso MBA - Latu Sensu em Gestão da Comunicação Integrada. Faculdade Pitágoras, Divinópolis, 2010.

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